"A verdade é que a gente não faz filhos. Só faz o layout. Eles mesmos fazem a arte-final."
Luís Fernando Veríssimo
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quarta-feira, 17 de março de 2010

On The Road


Um destes dias, pegamos na Vespa e vamos pela estrada fora. Até Aljezur, São Petersburgo ou Goa. Mas vamos.
Enquanto não arrancamos, vento na cara e nenhuma fronteira entre nós e o mundo, resguardamo-nos no ninho. Cabecinha na almofada, assim, assim.

(na imagem, a almofada de J., feita com um tecido japonês (!) que comprámos na retrosaria)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Eufemismo


Almoço na Cinemateca, com a minha amiga S., e o radar a funcionar. Na mesa ao lado, uma reunião de fidalgos e celebs culturais à volta de crepes de bacalhau, oiço esta pérola: "eu só uso o facebook para estar ao corrente das novidades". É assim. Uns exibem-se, outros cuscam. E outros ainda mantêm-se "ao corrente das novidades". Quem pode, pode.

(Hoje à tarde na Cinemateca, passa um Rohmer à antiga: Ma Nuit Chez Maud (1969). Saudades de Nova Iorque.)




sábado, 13 de março de 2010

Caldinho



Nas calmas, até às Caldas, à descoberta do Oeste português, que afinal não é como o outro, e está bem perto. Paragem em Peniche, no Baleal, para G. tirar a barriga de misérias, e ver mar, mar, mar (e sobretudo deixar a cidade para trás, o meu filho "rural"). Já nas Caldas, fizemos "visita de estudo" à Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro. E lá passeámos entre rãs e couves, lagostas e coelhos, deliciados com o génio de Raphael. Só não vimos andorinhas. Estavam esgotadas. Ou talvez tenhamos mesmo de esperar pela Primavera.

(nas imagens, as únicas andorinhas que vimos, e algumas peças à venda na loja. Pena que o "museu" acabe aqui. Parece que é só com visita marcada. E parece também que a fábrica prepara surpresas, com novas peças criadas por designers portugueses contemporâneos. Disse-me uma andorinha. Acreditem.)

domingo, 7 de março de 2010

Venham as Andorinhas



Aiiiiiii, se nos vemos na praia, pézinho na areia, gotinhas de água e sal ao de leve na cara, elegantemente escondidas atrás das abas de um chapéu imenso. A olhar a prole, debruçadas sobre os óculos de sol que reflectem a perfeição do dia. Tudo é claro e solar.

Venham as andorinhas, e a seguir as gaivotas!

e até perdoamos a chinfrineira que fazem nas praias desertas, amorosamente abandonadas, desde que seja uma praia, desde que seja Verão.


(este post é dedicado a todas as mães esmeradas dos nosso dias. As que gostavam de ser mães a tempo inteiro, mas não podem. As que são mães a tempo inteiro, e gostavam de ter um emprego 9 to 5. As que não são uma coisa nem outra, e não param de fazer ginástica. As que não dormem (ou pior, dormem duas horas, entrecortadas) e trabalham no dia seguinte. As que dão de mamar e de mimar. As que esquecem que tudo existe (até os blogues) para estar ao pé dos filhos quando eles precisam. A vida é boa e bonita, mesmo quando parece que só quer contrariar!)

(na imagem, um feliz presságio de Primavera, com alguns rebentos da minha Oliveirinha Palito e uma andorinha de Bordalo)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Retorno à Natureza


Depois do dia que tive, só mesmo assim, a flutuar na banheira de Wieki Somers. Como ainda não temos uma cá em casa, fecho os olhos e lá vou eu. L'imagination au pouvoir!.

(na imagem, a banheira-barco de Wieki Somers. Inspiração para os detectores de tendências do Studio Edelkoort, que estiveram hoje em Lisboa, a convite da CIN. Eu também lá estive e agora quero mais que nunca mudar-me para uma Farm of the Future. É o retorno à natureza, hi-tech e trendy.)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Nacionalidade (Ainda MEC)



A crónica diária do MEC no Público é um bálsamo. Faz-me soltar gargalhadas desobedientes. No metropolitano, tenho vontade de partilhar o que leio com os meus -indiferentes, taciturnos- companheiros de carruagem. Mas não dá. Sai o riso, disparado, disparatado, e ninguém me percebe. No Ainda Ontem de hoje que arranca assim:

"'Há quase cem mil novos portugueses desde que a Lei da Nacionalidade entrou em vigor, no final de 2006.' Isto fora os novos portugueses que não tiveram voto na matéria: o mais velho tem menos do que quatro anos de idade"

e quase termina assim:

"Temos sido inteligentes nos imigrantes que atraímos - até porque é estranho haver estrangeiros que querem viver num dos países mais pobres, mal pagos e melancólicos da Europa. Não obstante ser dos mais bonitos e menos maldosos."

"menos maldosos" é muito bom.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Mistérios e Surpresas


Hoje descobri que o designer Peter Marigold, cotadíssimo nas galerias de design por esse mundo fora, já vendeu cocos na praia de Ipanema. Cocos com rádios lá dentro, ou ventoinhas incorporadas, mas cocos. Também descobri que a designer Constance Guisset, que faz aquelas peças incrivelmente frágeis e cinéticas, gosta de jogar andebol. Andebol. Não percebo nada de andebol, mas de fora, parece-me dos desportos mais violentos que há. Bem diz o meu pai "a vida está cheia de mistérios e de surpresas". Podemos estar a assistir a essa coisa assustadora a que chamam "mudança de paradigma" nos media. Mas, mesmo num skype entrecortado, uma entrevista é uma entrevista, e nunca saimos de uma conversa como chegámos. E isso é naice.

(na imagem, "Shop Sign Bird Houses" (2008) de Peter Marigold)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Onde foste parar, Casa do Algarve?


Hoje, depois de um almoço com uma amiga no Vertigo, ao Chiado, decidi dar um salto ao Largo das Belas Artes para espreitar o novíssimo showroom da Bulthaup/Gaggenau que inaugurou na semana passada (as minhas obrigações para com as minhas crias impediram-me de assistir ao "evento" e espero não usar muito mais esta abominável palavra). Estive uns minutos perdida, sem encontrar a dita loja, e quando estava quase a interpelar dois estudantes que conversavam no meio da praça, vejo, do outro lado da rua, três janelinhas seguidas, com o logótipo do fabricante alemão de cozinhas discretamente colado ao vidro. Entrei no prédio, toquei à porta e fui gentilmente recebida por um senhor da Bulthaup que, quando me identifiquei como jornalista, se desfez em explicações sobre todas as cozinhas (eles chamam-lhes "sistemas"), bancadas, "soluções" e "inovações" do lugar. O lugar é sem dúvida muito bonito. Como bonitas são as cozinhas da Bulthaup e os candeeiros da Established & Sons. Mas a vida tem destas coisas. E pregou-me uma partida de encolher a alma. Este showroom com janelas é uma loja sem montra, e nas traseiras, tem uma das mais soberbas vistas sobre a cidade da Lisboa (e Tejo, e tudo). Uma vistaça que eu elogiei, logicamente. E que ingenuamente, me apressei a comparar: "Parece a vista da Casa do Algarve!" exclamei, saudosa de um almoço perfeito, a uma das janelas com vista sobre a cidade. E o senhor, muito solícito, atira-me um balde de água fria, cabeça abaixo, sem querer: "É que isto era a Casa do Algarve". Caiu-me tudo. Começo a olhar em volta. Aqui estava o espelho. Aqui uma colecção de garrafas de vidro. Aqui era a cozinha (e mantém-se a moldura de pedra onde estaria o fogão). Ali a mesinha onde nos sentámos. Dizem que nunca devemos regressar ao lugar onde fomos felizes. Pois aqui já não voltamos, meu amor.

(este post não tem links em homenagem à extinta Casa do Algarve. Na imagem, Largo da Academia das Belas Artes, Lisboa)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Vida a Fazer-Se


G., o meu filho de seis anos, entretém-se a brincar com um velho Mac que um dia se estatelou no chão, deixou de poder fechar-se e passou de portátil a estático num segundo. Eu já não posso levá-lo comigo nas minhas andanças, mas G. não se importa. Para além de ver o desfile de bandeirinhas de todos os países possíveis e impossíveis na barra de idiomas, o meu filho perde-se pelo iPhoto. Passa horas a ver fotografias, recorta-as, dá-lhes voltas. Mas o verdadeiro prazer é fazê-las correr, umas atrás das outras,o dedo imparável numa vertigem de imagens que se sucedem. "Mãe, queres ver a vida a fazer-se?" pergunta G., sorriso luminoso. De repente lembro-me de Godard. "Le cinéma, c'est 24 fois la verité par seconde".

Imagem: Jean Seberg em À Bout de Souffle (1960). Pergunto-me o que dirá G. quando descobrir os jump cuts.